22/01/2011 11h32 - Atualizado em 22/01/2011 11h32
Santiago do Chile, 22 jan (EFE).- O brasileiro José Graziano da Silva, atual representante regional na Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) para a América Latina e o Caribe, deseja a direção geral do organismo com base no sucesso do Brasil na luta contra a fome como principal aval.
Graziano, que foi ministro de Segurança Alimentar e Combate à Fome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, entra na disputa pela chefia da FAO com o espanhol Miguel Ángel Moratinos.
Em entrevista concedida à Agência Efe no Chile, sede do escritório regional da FAO, Graziano garante que para suceder o senegalês Jacques Diouf, que está no posto desde 1994, "o mais importante é estar comprometido".
"O fundamental é ter uma pessoa, em primeiro lugar, comprometida com os objetivos da organização, que tenha capacidade de conduzir os instrumentos, que conheça o campo de trabalho, mas, principalmente, uma pessoa que cria no multilateralismo", assegura.
E, ao ser questionado sobre as contribuições econômicas dos Estados, argumenta que se sempre "o país com maior aporte financeiro tivesse que conquistar a Presidência, todas as organizações deveriam ser presididas por norte-americanos, japoneses (...)".
Face às eleições que serão realizadas no fim de junho na Conferência da FAO em Roma, Graziano já conta com o apoio formal dos países de fala portuguesa e dos 12 países que compõem a União de Nações Sul-americanas (Unasul).
Sua estratégia é pedir o voto dos 192 estados-membros das Nações Unidas, trajetória que dará início a partir desta segunda-feira na Cúpula da União Africana que será realizada em Adis-Abeba (Etiópia), onde exibirá sua experiência como principal garantia.
Porque, segundo Graziano, Lula viu na FAO uma "oportunidade de mostrar o que o Brasil podia oferecer aos outros países".
"Brasil pode contribuir com maior força, principalmente na América Latina, na África e na Ásia, e prestar assistência técnica nos temas de formulação de políticas de segurança alimentar, desenvolvimento rural e tecnologia agropecuária", explica.
Graziano conta que o ex-presidente não quis nomeá-lo aspirante antes das eleições de outubro, porque "dizia que tinha que ser candidato também" do novo líder, que acabou sendo Dilma Roussef, sua candidata à sucessão.
Seu principal aval é o êxito do programa Fome Zero, que ele mesmo impulsionou e que atualmente oferece cobertura a mais de 13 milhões de famílias brasileiras, considerado fator decisivo para elevada avaliação com que Lula deixou o poder em 1º de janeiro.
No entanto, o ex-ministro não acredita que este programa de ajuda social possa ser transferido para outros países, porque "sua qualidade é justamente adaptar-se às condições locais".
"O conceito do 'fome zero' pode ser exportado, mas não suas práticas", ressalta.
Graziano, economista e engenheiro agrônomo, que nesta sexta-feira oficializou sua inscrição em Roma, conta também com uma dilatada experiência após cinco anos à frente da Direção Regional da FAO na América Latina, com 33 países sob seu comando, embora o balanço de sua gestão não possa ofuscar a realidade.
"Não me sinto satisfeito. Cheguei aqui e a região contabilizava 54 milhões de famintos e agora continha tendo 53 milhões. É uma redução pequena para um continente que pode erradicar a fome no curto prazo", afirma.
Graziano considera que, dadas "as condições atuais de tecnologia disponível e de terras utilizáveis", a América Latina poderia acabar com essa praga até 2025, mas falta o compromisso político e o respaldo social para alcançá-lo.
"Há um desafio pela frente. A FAO tem muito que fazer nesta região", ressalta.
Graziano aponta os avanços na instituição, como a aprovação de leis de segurança alimentar em dez países da região - "antes não havia nenhuma"- e a crescente mobilização da sociedade civil nesta causa.
Sente-se "satisfeito" por ter implementado programas de alimentação escolar na maioria dos países da América Central e nos países andinos, e por ter "apostado na agricultura familiar".
Além disso, durante sua gestão impulsionou a descentralização do organismo com a criação de dois novos escritórios sub-regionais, um no Panamá e outro no Chile, esta última para a América do Sul, que se somam ao existente no Caribe.
Isto faz parte da reforma à qual a FAO projetou em 2004 para "chegar a uma descentralização que permita atuar nos países com maior eficácia". Ambos os processos, segundo Graziano, deveriam culminar nos próximos quatro anos.
O ex-ministro ainda procura reduzir a burocracia, melhorar a transparência dos recursos econômicos e situar a FAO como uma "instituição do conhecimento" com uma corrida interna e um sistema democrático de gestão.
Tudo isso, para que a FAO seja um ator mais eficaz na hora de combater a fome no mundo, que ainda afeta 925 milhões de pessoas. EFE
Fonte: G1
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